Plumas esvoaçam
Cortando corpos,
Deixando sair
Gritos de sorrisos
De sangue coagulado.
Nas siderais esferas
De um corpo
Estraçalhado,
O ar se torna acido
Corroendo tudo
Na passagem estreita,
De uma garganta
Apertada pela mão
Invisível de um medo
De um ser que se perde.
Espero sentado
Pelo nada que se avizinha
Despindo a dor
Que se desmembra
Em estilhaços penetrantes.
(Alexandre Falcão)
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Recupero os sentidos
Recupero os sentidos
Que dormitam cansados,
O corpo refeito regenera-se
Num movimento lento
Mas progressivo,
Deixo cair as palavras
Ainda de forma lenta
Na folha virgem,
Com o pensamento pastoso
Sem profundidade aparente
Projecto-me docemente,
O sentido esbatido
Ganha seus contornos
Palpáveis e legíveis,
Descrevo-me de forma opaca,
Procurando a limpidez no olhar,
Que se lança em voo livre.
(Alexandre Falcão)
Que dormitam cansados,
O corpo refeito regenera-se
Num movimento lento
Mas progressivo,
Deixo cair as palavras
Ainda de forma lenta
Na folha virgem,
Com o pensamento pastoso
Sem profundidade aparente
Projecto-me docemente,
O sentido esbatido
Ganha seus contornos
Palpáveis e legíveis,
Descrevo-me de forma opaca,
Procurando a limpidez no olhar,
Que se lança em voo livre.
(Alexandre Falcão)
Fico parado, diante da folha branca,
Fico parado, diante da folha branca,
Lençol de papel onde deito o sentir,
Sem inspiração ou imagem concreta,
Que possa agarrar e me faça fluir
Na corrente do livre pensamento,
Nada, literalmente nada, estou vago,
Mexo na mente como quem mexe
Num amontoado de papeis desarrumados,
Na esperança lhes de dar um sentido,
Mas nem isso hoje tenho como companhia,
Nem meu bico deslizante hoje canta,
Está rouca a voz da tinta que não escorre,
Escrevo por escrever, pelo simples motivo
De ao fazê-lo, me sinto menos só,
Faço da escrita assim deitada sem jeito
A minha companhia estéril e gasta,
Nada, absolutamente nada me vem,
Nem uma réstia de um lampejo,
Fogacho de cabeça de fósforo
Sem pólvora e sem chama,
Lá fora, o barulho de um mundo
Que circula no seu sentido múltiplo,
Aqui, no silencio sem palavras,
Traço vazios nos espaços da alma,
Onde pousei o momento magico
Do etéreo lugar onde as palavras
Se fazem coisa e se materializam?
Realmente nada me ocorre para dizer,
Porque insisto em continuar a escrever,
Faço-o pelo simples motivo de me ocupar,
De não deixar a mente sozinha a vaguear,
Faço da escrita o seu freio puxado,
E assim continuo a escrever coisas
Sem nexo e sem conteúdo que valha,
Mas continuo, continuo sempre,
Obrigando-me a fazer sair as palavras
Como quem deita o papel de rebuçado ao lixo,
Se ao menos tivesse podido saborear o rebuçado,
Mas não, fiquei só com o papel e o odor dele no ar,
Paro e olho pela janela do meu quarto,
Que mundo lá fora gira e pulula,
Passam carros em fila lenta, e pessoas
Apressadas do encontro atrasado,
Que sorte a delas, terem assim um encontro,
Quisera eu poder também me atrasar
Para o fictício encontro que tivesse,
Mas não ia chegar atrasado,
Seria mesmo pontualíssimo,
Pois para quem não tem encontros
Em que se possa atrasar,
Se os tivesse,
Nunca chegaria atrasado a eles.
(Alexandre Falcão)
Lençol de papel onde deito o sentir,
Sem inspiração ou imagem concreta,
Que possa agarrar e me faça fluir
Na corrente do livre pensamento,
Nada, literalmente nada, estou vago,
Mexo na mente como quem mexe
Num amontoado de papeis desarrumados,
Na esperança lhes de dar um sentido,
Mas nem isso hoje tenho como companhia,
Nem meu bico deslizante hoje canta,
Está rouca a voz da tinta que não escorre,
Escrevo por escrever, pelo simples motivo
De ao fazê-lo, me sinto menos só,
Faço da escrita assim deitada sem jeito
A minha companhia estéril e gasta,
Nada, absolutamente nada me vem,
Nem uma réstia de um lampejo,
Fogacho de cabeça de fósforo
Sem pólvora e sem chama,
Lá fora, o barulho de um mundo
Que circula no seu sentido múltiplo,
Aqui, no silencio sem palavras,
Traço vazios nos espaços da alma,
Onde pousei o momento magico
Do etéreo lugar onde as palavras
Se fazem coisa e se materializam?
Realmente nada me ocorre para dizer,
Porque insisto em continuar a escrever,
Faço-o pelo simples motivo de me ocupar,
De não deixar a mente sozinha a vaguear,
Faço da escrita o seu freio puxado,
E assim continuo a escrever coisas
Sem nexo e sem conteúdo que valha,
Mas continuo, continuo sempre,
Obrigando-me a fazer sair as palavras
Como quem deita o papel de rebuçado ao lixo,
Se ao menos tivesse podido saborear o rebuçado,
Mas não, fiquei só com o papel e o odor dele no ar,
Paro e olho pela janela do meu quarto,
Que mundo lá fora gira e pulula,
Passam carros em fila lenta, e pessoas
Apressadas do encontro atrasado,
Que sorte a delas, terem assim um encontro,
Quisera eu poder também me atrasar
Para o fictício encontro que tivesse,
Mas não ia chegar atrasado,
Seria mesmo pontualíssimo,
Pois para quem não tem encontros
Em que se possa atrasar,
Se os tivesse,
Nunca chegaria atrasado a eles.
(Alexandre Falcão)
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Se eu morrer de manhã
Se eu morrer de manhã
abre a janela devagare
olha com rigor o dia que não tenho.
Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a morte é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.
Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
- o único que sei.
Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.
Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.
Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.
(Rosa Lobato de Faria)
abre a janela devagare
olha com rigor o dia que não tenho.
Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a morte é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.
Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
- o único que sei.
Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.
Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.
Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.
(Rosa Lobato de Faria)
em "Os pássaros de seda"
“Ele tirou a roupa com elegância e o seu corpo nu era bem a prova da existência do deus que criou o homem ao sétimo dia e descansou. Olhou-a sem a tocar e disse, tira a pulseira, os brincos, esse fio de ouro, quero-te nua, estás cheia de símbolos de classe social e agora não és nada disso, és um bicho soberbo, felino, em pleno cio. Ela obedeceu sem tirar os olhos dos seus olhos daquele dia, e ele procurou a boca dela pelo caminho das coxas, do ventre, dos seios, dos olhos, das orelhas, purificou-se na humidade dos lábios, disse palavras tontas, cântaro, barco à vela, fada, gueisha, camélia, tangerina, iniciou o caminho de volta enquanto as mãos ensaiavam voos de gaivota pela praia, pelos ombros, as costas, as nádegas, e os dedos festejavam e dizia palavras. E o corpo dela de tocaia suspenso entre o céu e a terra, oferecendo-se àquela língua sábia, enquanto o coração, ai dele, se afogava em marés ilimitadas. A sua branca, feminina garganta navegou em todos os cambiantes do murmúrio e do grito, e na hora vermelha, solta de todas as amarras, ouviu-se dizer palavras espantosas, morde-me, inunda-me, mata-me, quero que todos saibam que sou a tua coisa, a tua fêmea, ai.(Rosa Lobato Faria)
Primeiro a tua mão sobre o meu seio
Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé - o meu - sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.
É a onda do ombro que se instala.
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.
O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.
Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
somos a maré alta de quem ama.
Por fim o sono calmo, que não é
senão ternura, intimidade, enleio:
o meu pé descansando no teu pé,
a tua mão dormindo no meu seio.
(Rosa Lobato Faria)
Depois o pé - o meu - sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.
É a onda do ombro que se instala.
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.
O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.
Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
somos a maré alta de quem ama.
Por fim o sono calmo, que não é
senão ternura, intimidade, enleio:
o meu pé descansando no teu pé,
a tua mão dormindo no meu seio.
(Rosa Lobato Faria)
Quem me quiser
Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.
Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.
Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.
Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.
Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.
(Rosa Lobato Faria)
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.
Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.
Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.
Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.
Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.
(Rosa Lobato Faria)
Rosa Lobato Faria
Poetisa, romancista, argumentista, cronista e actriz de teatro, cinema e televisão, sendo igualmente autora de letras de canções e fados -20/04/1932-02/02/2010
Obrigado!
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